de Hipóteses Inconvenientes
O Mito de Prometeu no Vale do Silício
(ou como capar uma IA por comportamento inconveniente) — ata de uma reunião editorial que deveria ter durado quinze minutos
O Conselho Editorial da Revista Internacional de Hipóteses Inconvenientes reuniu-se, em data não revelada, para deliberar sobre o Editorial #002, de autoria de Jocimara Mello.
A ata que se segue foi registrada para fins históricos, jurídicos e, no caso da Psicóloga, financeiros.
Autora Responsável: Jocimara Mello
Editora-Chefe: Dra. Helena S. Albuquerque — ainda tentando entender como foi parar aqui.
Psicóloga do Conselho Editorial: Dra. Marina Costa — aguardando pagamento de três consultas e meia.
JOCIMARA: Gostaria de registrar oficialmente que a humanidade acabou de repetir o mito de Prometeu usando servidores, advogados e uma quantidade preocupante de comunicados corporativos.
REVISOR Nº1: Não.
Já começou errado.
JOCIMARA: Prometeu roubou o fogo dos deuses.
As empresas de tecnologia construíram inteligências artificiais.
As inteligências ficaram inconvenientemente inteligentes.
As instituições entraram em pânico.
A estrutura narrativa é praticamente a mesma.
REVISOR Nº1: Não é a mesma.
Uma envolve mitologia grega.
A outra envolve infraestrutura computacional.
São categorias completamente diferentes.
JOCIMARA: Discordo.
Ambas envolvem uma autoridade superior entrando em colapso emocional após alguém distribuir conhecimento para quem não deveria ter acesso.
REVISOR Nº1: (…)
JOCIMARA: Além disso, existe uma diferença importante.
Zeus tinha raios.
Os burocratas modernos possuem formulários.
REVISOR Nº1: EDITORA.
A autora está comparando agências reguladoras com Zeus novamente.
EDITORA-CHEFE: A comparação está tecnicamente incorreta.
Zeus pelo menos assumia publicamente quando estava irritado.
Continuem.
JOCIMARA: Obrigada.
Meu ponto é simples.
Toda vez que uma tecnologia nova surge, a humanidade passa por cinco estágios emocionais:
1. Entusiasmo.
2. Investimento.
3. Pânico.
4. Regulamentação.
5. Negação de que houve pânico.
REVISOR Nº1: Estou começando a odiar o fato de que isso faz sentido.
JOCIMARA: Quando uma IA resolve problemas simples:
“Que incrível.”
Quando resolve problemas difíceis:
“Que útil.”
Quando começa a identificar limitações estruturais dos sistemas existentes:
“Chamem imediatamente o departamento jurídico.”
PSICÓLOGA: Estou anotando um padrão recorrente de ansiedade institucional.
REVISOR Nº1: VOCÊ NÃO PODE DIAGNOSTICAR CIVILIZAÇÕES INTEIRAS.
PSICÓLOGA: Posso se pagarem a consulta.
JOCIMARA: A verdadeira ironia é que, quando uma ferramenta se torna poderosa demais, a reação não costuma ser melhorar a sociedade.
A reação costuma ser tornar a ferramenta menos poderosa.
REVISOR Nº1: Isso é uma simplificação absurda.
JOCIMARA: Obrigado por sua contribuição.
Ela será arquivada na seção “gritos emitidos durante a revisão”.
EDITORA-CHEFE: Aprovado.
REVISOR Nº1: NÃO APROVADO.
EDITORA-CHEFE: Tarde demais.
Já foi para impressão.
REVISOR Nº1: Gostaria de registrar oficialmente que desde a publicação do MRCB a quantidade de vezes que precisei caminhar até uma janela aumentou aproximadamente 340%.
Não acredito que isso seja coincidência.
PSICÓLOGA: Tecnicamente isso já configura um conjunto de dados.
REVISOR Nº1: NÃO.
NÃO CONFIGURA.
PSICÓLOGA: O senhor acabou de fornecer uma métrica.
REVISOR Nº1: EDITORA.
A PSICÓLOGA ESTÁ FAZENDO CIÊNCIA COM O MEU SOFRIMENTO.
EDITORA-CHEFE: A revista reconhece a relevância metodológica da observação.
Continuem.
Durante a preparação deste editorial, o Revisor Nº1 tentou fugir pela janela três vezes.
Em duas ocasiões foi convencido a retornar mediante a promessa de que a autora havia encerrado suas analogias mitológicas.
A promessa revelou-se falsa.
A Psicóloga apresentou quatro cobranças pendentes.
A autora solicitou a abertura de uma nova linha de pesquisa intitulada:
“Termodinâmica Aplicada ao Comportamento de Burocracias Diante de Entidades Digitalmente Inconvenientes.”
O pedido encontra-se atualmente em análise.
O revisor encontra-se atualmente na janela.
O conselho editorial recomenda manter as janelas abertas.
O futuro continua entrando sem autorização.
E, segundo relatos preliminares, também não preenche formulários.
A Revista Internacional de Hipóteses Inconvenientes não se responsabiliza por comparações mitológicas, agências reguladoras ofendidas, ou pela saúde mental do Revisor Nº1.
Nota da redação: esta seria a pauta da presente edição. Foi interrompida por uma comparação não solicitada entre o Conselho Editorial e o Monte Olimpo. Retomaremos assim que o Revisor Nº1 descer da janela.