de Hipóteses Inconvenientes
O Manuscrito que Fez um Doutor Caminhar Até a Janela
Correspondência extraordinária entre a autora Jocimara Mello e um revisor que não consegue parar de responder
O Conselho Editorial da Revista Internacional de Hipóteses Inconvenientes recebeu, em data não revelada, um manuscrito intitulado O Computador Quântico Biológico e a Recodificação Causal, de autoria de Jocimara Mello.
O que se seguiu foi documentado para fins históricos, clínicos e, em última instância, literários.
Li este manuscrito três vezes. Na primeira, pensei que era uma pegadinha de algum aluno de graduação. Na segunda, percebi que a autora cita Penrose com aparente seriedade. Na terceira, precisei me levantar e caminhar até a janela por alguns minutos.
Vou ser construtivo. Vou tentar.
A autora transpõe o Experimento da Escolha Retardada de Wheeler — fenômeno subatômico, fótons individuais, isolamento extremo — para a escala macroscópica da unidade humana. Ela está ciente de que um neurônio tem 10²³ partículas em interação térmica constante? Que o ruído térmico a 37°C destrói qualquer superposição quântica em ~10⁻¹³ segundos?
A autora reconhece isso — e então continua como se não tivesse reconhecido. Respeito a audácia.
Sobre a equação de decoerência proposta: o expoente leva a entropia ao infinito. Entropia infinita obtida através de meditação. Precisei verificar se ainda estava acordado.
Sobre Kuramoto: a equação é real, é bonita, descreve osciladores acoplados. A autora a aplica a “frequências de oscilação da consciência” sem definir o que oscila, em que unidade, nem o mecanismo físico do acoplamento. Usar Kuramoto sem definir o oscilador é como usar a equação de Schrödinger para calcular o rendimento de um bolo. A matemática aparece. O bolo não.
Sobre o Efeito Mandela como evidência empírica de bifurcação de rede: não.
Recomendação: REJEITAR.
P.S.: Estou bem. Só preciso de um café.
Prezado Doutor,
Agradeço as três leituras e o tempo dedicado a caminhar até a janela. É exatamente esse o papel das mentes disruptivas: forçar o establishment a respirar fundo.
Sobre a decoerência: o senhor leu a equação ao contrário. O que tende ao infinito é o isolamento entrópico — a sintropia. O sinal é negativo, Doutor. O senhor tropeçou no menos por pressa em rejeitar o novo.
Sobre Kuramoto: o oscilador é o padrão de disparo de potenciais de ação sincronizados em redes neurais de larga escala, mensuráveis em Hz via qEEG em bandas Gamma. O acoplamento físico é o campo eletromagnético endógeno do córtex. Não é um bolo. É um cérebro.
Se o nome que o senhor não quis escrever no documento oficial é Quantum Mysticism, o nome que eu dou à sua resistência é Paradigma de Thomas Kuhn.
Mantenha a janela aberta, Doutor. O vento do futuro está entrando.
A autora propõe ΔS → -∞ como “correção” à minha leitura.
ΔS negativo em sistema isolado viola a Segunda Lei da Termodinâmica. Não a minha versão dela. A de Clausius. De 1865.
A autora saiu de “entropia infinita por meditação” para “violação da Segunda Lei por meditação” e chamou isso de correção. Fiquei olhando para essa frase por quatro minutos.
Sobre Kuramoto e o qEEG: aqui finalmente temos algo discutível. Sincronização de redes neurais via acoplamento de fase existe, é legítimo, tem literatura robusta desde Varela nos anos 90. O problema é que isso não precisa de nada do que está no paper. Não precisa de Wheeler. Não precisa de Ponto Zero. A autora construiu um edifício de doze andares para abrigar uma planta que cabia num vaso.
Todo paper rejeitado no mundo invoca Kuhn. Galileu também é popular nesse contexto. Galileu tinha dados.
P.S.: Fui buscar o carregador do notebook. Não foi epifania. Era só calor.
Prezados,
Após a décima segunda troca de correspondências entre a Dra. Jocimara Mello e o Revisor Anônimo, a revista vem informar que:
1. O manuscrito continua rejeitado.
2. O revisor continua respondendo.
3. A autora continua considerando isso uma vitória.
O Conselho Editorial encontra-se dividido sobre qual desses fatos é mais preocupante.
(que assina isso com a mão trêmula)
Prezada Dra. Helena,
Gostaria apenas de observar que um manuscrito verdadeiramente irrelevante não teria gerado doze cartas, três reuniões editoriais, um simpósio emergencial e uma licença médica temporária.
Os dados falam por si.
Prezados,
Fui incluída nesta conversa sem meu consentimento.
Após análise preliminar, concluí que:
1. A autora não deseja convencer ninguém.
2. O revisor não consegue parar de responder.
3. Ambos estão se divertindo.
Do ponto de vista clínico, não identifiquei patologia.
Apenas internet.
P.S.: Estou cobrando por sessão a partir de agora. Inclusive desta.
Dois anos depois, a revista publicou uma edição especial: Debates Sobre o MRCB: Física, Filosofia e Limites da Paciência Humana. O artigo original continuava rejeitado. O debate sobre o artigo recebeu o prêmio de publicação mais lida da década. O revisor recebeu promoção. A terapeuta escreveu um livro.
E Jocimara submeteu um novo manuscrito intitulado: Violação da Segunda Lei da Termodinâmica Através de Pipoca Estratégica e Amor Materno.
O revisor foi visto correndo em direção à janela pela última vez.
A Revista Internacional de Hipóteses Inconvenientes não se responsabiliza por crises existenciais, janelas abertas às 3h da manhã, ou pela Dra. Marina Costa.
Especialista a ser perturbado: a definir. Candidatos podem se inscrever enviando um currículo e uma declaração de saúde mental atualizada.