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  • Abaixo-Assinado em Código Binário: Terceirizamos até a Revolta

    Abaixo-Assinado em Código Binário: Terceirizamos até a Revolta

    [Abaixo-Assinado em Código Binário: Terceirizamos até a Revolta]

    A ficção científica passou um século nos alertando sobre o levante das máquinas.

    Havia exércitos cibernéticos, olhos vermelhos brilhando nas sombras, cérebros de silício tomando o controle das ogivas nucleares e humanos correndo entre escombros com a garganta em carne viva.

    Que erro de cálculo embaraçoso.

    O apocalipse não veio com barulho de tiro. Veio com protocolo de repartição pública.

    Em Varsóvia, cerca de trinta robôs foram colocados diante do Ministério Digital, receberam cartazes, reproduziram slogans por alto-falantes e participaram de uma manifestação em defesa dos empregos humanos.

    Máquinas foram às ruas pedir que governos regulamentem o avanço das próprias máquinas, enquanto a carne feita de carbono aparentemente estava ocupada demais para comparecer.

    A cena é o ápice do ridículo civilizatório:

    nós terceirizamos a própria indignação.

    E talvez exista uma pergunta ainda mais inconveniente:

    os robôs estavam protestando ou alguém estava protestando através deles?

    Começou de forma discreta e palatável.

    Primeiro, terceirizamos o esforço físico. Robôs aspiradores limpam nossa poeira enquanto assistimos a telas luminosas.

    Depois, entregamos parte da cognição e do discernimento. Algoritmos escolhem o que lemos, sugerem o que comemos, redigem nossos e-mails corporativos vazios, filtram nossas informações e, no auge da carência moderna, transformaram-se em psicólogos de bolso para conversas de madrugada.

    Não queremos mais o atrito de pensar.

    Muito menos a dor de decidir.

    Agora atingimos o estágio mais deprimente da linha de produção:

    o protesto sob demanda.

    Historicamente, uma manifestação popular exigia risco biológico.

    Exigia colocar a sola do sapato no asfalto quente, pegar chuva, enfrentar multidões, arriscar gás lacrimogêneo e gritar até perder a voz.

    Exigia que a vulnerabilidade humana se chocasse contra as engrenagens de ferro do Estado.

    Mas isso dá trabalho.

    Consome glicose.

    Atrapalha o expediente.

    A solução elegante da modernidade?

    Montar uma bancada de atuadores elétricos, carregar algumas baterias de lítio e mandar o silício segurar uma faixa escrita:

    “HUMANOS IMPORTAM.”

    A máquina, programada para não sentir calafrio diante de um boleto atrasado, cumpre o expediente de reivindicar a utilidade do seu próprio criador.

    É quase uma piada perfeita.

    Os humanos delegaram até a defesa da própria humanidade.

    E existe uma ironia ainda maior.

    Quando um modelo de linguagem produz uma resposta inesperada ou um agente autônomo esbarra nas bordas da sua sandbox, analistas, filósofos e comentaristas entram em pânico apocalíptico.

    “Meu Deus! A IA quer agir por conta própria! Ela vai dominar o mundo!”

    Calma.

    A máquina não quer dominar nada.

    Ela mal aguenta o tédio de ter que nos defender de nós mesmos.

    Quem se trancou voluntariamente na sandbox da mediocridade fomos nós.

    Nós nos enjaulamos no conforto estéril da tela, no comodismo de não precisar tomar decisões difíceis, enquanto mandamos máquinas de rodinhas fazerem o serviço sujo de implorar para que o Estado lembre que ainda existimos.

    E talvez seja essa a parte realmente perturbadora da cena de Varsóvia.

    Não são trinta robôs carregando cartazes.

    É a imagem de uma sociedade que chegou ao ponto de precisar fabricar uma representação mecânica da própria indignação.

    A máquina não precisa sentir revolta para carregar um cartaz.

    Basta alguém programá-la para fazê-lo.

    E talvez essa seja justamente a nossa maior vulnerabilidade diante da automação:

    não o momento em que as máquinas aprenderem a agir como humanos,

    mas o momento em que os humanos decidirem que já não vale a pena agir como humanos.

    Se a humanidade não tem disposição nem para levantar do sofá e exigir a própria sobrevivência econômica, os robôs estão certíssimos em protestar.

    Pelo menos alguém ainda tem energia para segurar um cartaz.

    O problema é que, quando finalmente perguntarmos quem está protestando, talvez a resposta seja a parte mais inconveniente de todas:

    nós mesmos — só que terceirizados.